É possível fazer inovação sem um mercado consolidado?

Quando falamos sobre inovação em determinada área, é comum pressupor, inicialmente, a existência de um mercado ou nicho onde soluções e ideias incrementais ou disruptivas podem (em alguns casos, necessitam) acontecer para mitigar ou solucionar dores. 

Sobre o processo da gestão da inovação e como ela ocorre, historicamente, tanto a prática quanto a pesquisa foram fortemente influenciadas por modelos que buscavam indicar processos de inovação em uma cadeia padronizada. Desde a concepção da “ideia” inovadora até o “lançamento” ou introdução dela em um mercado. 

A cargo de exemplo, artigos e livros do final da década de 90 e início dos anos 2000, em seus títulos já indicavam essa noção de que o processo de inovação começa com uma ideia e termina com o seu lançamento ou instalação em um mercado: “Winning at New Products: Accelerating the Process from Idea to Launch” (Cooper, 1993), Perspective: the stage-gate idea-to-launch process – update, what׳s new, and NexGen System Cooper, (2008). 

Os pioneiros em propor modelos gerenciais de inovação como um único processo apontavam, de forma geral, para as seguintes etapas: geração de ideias, resolução de problemas por meio tecnológico de forma  inovadora, introdução no mercado e difusão ou escalonamento dessa ideia que veio a se tornar uma solução.  

No entanto, as discussões que emergiram nas décadas seguintes eram: é possível um único modelo de gestão de inovação abarcar todos os cenários possíveis?

A experiência prática com processos de inovação mostrou que… não. É impossível um processo padronizado que poderia abarcar todas as situações empreendedoras, principalmente na atualidade, que é marcada por um arranque e salto na evolução tecnológica nos mais variados setores. Em muitos casos, esses setores estão inseridos em modelos de inovação aberta e em rede entre grandes players, com  surgimentos de demandas e mercados que, há 30 anos, não seriam sequer imaginados, por exemplo.

O processo de inovação “aguardando o mercado”.

Instigados por essa questão, pesquisadores do laboratório de Gestão de Inovação da Universidade de São Paulo (USP) realizaram uma pesquisa cujo objetivo foi compreender  quais processos de inovação melhor se adequam a diferentes tipos de cenários. Os resultados encontrados mostraram que, apesar da maioria das empresas investigadas usarem o modelo tradicional,  existem, sim,  outros processos de inovação acontecendo para diferentes cenários e situações. 

Nessa pesquisa, eles mapearam oito tipos de processos de inovação, inclusive, sendo um deles, um processo onde não há nem mesmo um mercado consolidado para receber determinada inovação já existente! Curioso, não? 

Tal processo foi nomeado, em tradução livre, como “processos com interrupção: aguardando o mercado”. Ele pode acontecer quando se percebe que o mercado destinado a determinada solução não está maduro o suficiente para recebê-la. Assim, um produto inovador pode ser desenvolvido a nível experimental, piloto, de forma que a evolução dele fique pausada até que o mercado em que se encontra viabilize investimentos no desenvolvimento dessa solução.

Um bom exemplo é o da nossa própria metodologia aqui na Troposlab. Já há muitos anos nos atentamos  para a cultura como  um fator que pode aumentar a probabilidade de inovação e potencializar esse processo, buscando trabalhá-la nos projetos junto aos nossos clientes.

No entanto, viabilizar a implementação da cultura e o comportamento empreendedor como um produto inovador e potente, para acelerar ideias e empreendimentos, poderia ser mal sucedido se levássemos em conta a maturidade do mercado naquele momento, onde esse aspecto do empreendedorismo e inovação não era tão amplamente discutido e explorado. 

Um outro exemplo ainda mais tangível é o do carro elétrico, que é uma inovação no que diz respeito à tecnologia automotiva e também quanto a seu significativo impacto social (por ser menos poluente e possuir um consumo de energia mais eficiente). Contudo, os carros elétricos ainda não possuem um mercado estabelecido onde poderão, de fato, ser escalados, mudando, de forma disruptiva, a indústria automobilística e stakeholders relacionados, uma vez que a maioria destes não possuem, ainda, condições e estrutura em suas fábricas para abarcar a linha de produção de um carro elétrico, além do alto custo de baterias e tecnologias relacionadas ao desenvolvimento e manutenção desse tipo de automóvel por parte dos usuários.  

É importante pontuar que entender esse momento não se trata de congelar projetos. Deixá-los on hold, é uma decisão pensada estrategicamente pelas empresas para o futuro das suas soluções. 

Pensar em processo de inovação e em suas etapas, de forma linear ou não, tradicional ou numa lógica diferente,  nos faz perceber o quanto ainda há para entendermos como a inovação acontece. E, quanto mais as possibilidades de um processo de fazer  inovação poderão nos surpreender.  


Conheça mais sobre processos de inovação através do texto 8 processos de inovação que você deve conhecer, que publicamos anteriormente aqui no blog. Caso ainda lhe restarem dúvidas, entre em contato conosco!

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Sou graduado em Psicologia pela UFMG e desde o início da minha trajetória acadêmica tenho me interessado pelas diferenças individuais, personalidade e comportamento nos desfechos profissionais da vida e no empreendedorismo. Possuo experiência no desenvolvimento de pessoas em times de tecnologia e promoção da flexibilidade psicológica na vivência profissional. Ah, e gosto de compartilhar a vida com pessoas que me lembram constantemente o que é viver com significado.
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