Nos últimos meses diferentes autores da inovação chamaram a atenção para o efeito devastador que o “novo normal” pode ter para a intensidade e qualidade das inovações geradas em longo prazo. O novo normal é como temos chamado a forma com que a sociedade pode se organizar pós-pandemia, especialmente durante o período em que a Covid-19 ainda impõe o distanciamento social, impactando todos os aspectos de nossa sociedade.

A preocupação no ambiente de inovação é justamente com o fato de que o isolamento social tem enfraquecido redes de contato que alimentam o processo de ideação. Esse processo quase sempre é deixado ao poder do acaso, das conexões inusitadas, improváveis ou espontâneas que geram aquela faísca intelectual e faz nascer novas ideias e projetos. Apesar de não estar sob a gestão atenta dos inovadores, é reconhecidamente importante o papel de reuniões aos “Vales” como o Vale do Silício.

Para quem nunca visitou o Vale do Silício ou Sillicon Valley, esse ambiente de conexões acontece de forma natural e em vários níveis: são cafés onde investidores e empreendedores se encontram; eventos de discussão como meetups, na maior parte das vezes gratuitos, que atraem pessoas de todos os tipos; é a proximidade da academia e seus pesquisadores com as empresas geradoras de tecnologia, gerando projetos, ideias, startups, etc. O Vale do Silício tem sido tomado como exemplo de comunidade geradora de inovação.

Agora nosso olhar se volta para o processo de ideação, um dos calcanhares de Aquiles da gestão da inovação. O isolamento social está afetando diretamente os mecanismos espontâneos que dão origem à inovação: reuniões online muito mais objetivas, eventos científicos sendo cancelados, meetups sendo substituído por centenas de lives ou webinars onde não há interação. E se olharmos para o futuro, a própria redução da migração de pessoas é uma ameaça importante a esse processo (Veja o artigo de Carl Benedikt Frey).

É possível inovar no isolamento social?

Temos uma resposta fácil, rápida e certa sobre essa pergunta. Sim! Basta ver a velocidade de desenvolvimento de novas vacinas para a Covid-19. Ao olhar para a comunidade de pesquisadores envolvida na discussão, vemos um altíssimo nível de compartilhamento por meio de suas publicações, uma mudança rápida no formato e critérios de avaliação dos canais científicos que permitem isso e criação eficiente de colaboração. Claro que já podemos ver alguns efeitos negativos do relaxamento dos critérios de publicação, por exemplo, mas novas práticas vão surgindo para lapidar esses novos processos. Veja o manifesto por essa colaboração publicado pela Organização Mundial de Saúde.

Esse exemplo nos mostra que é possível, mas também nos mostra que quanto mais complexa a tecnologia, em geral, mais colaboração e interação ela precisará.

Mas o isolamento é uma realidade que se impõe a nós. E, se sabemos que a inovação não acontece no isolamento, não acontece através de um inventor brilhante ou um herói que percorre todo o caminho da idéia ao mercado, precisamos fazer um esforço para romper alguns padrões e tornar mais planejada ou induzida essa etapa tão cara ao processo de inovação. Por isso, nossa melhor saída é nos tornarmos conscientes rapidamente dessas mudanças e criar novos mecanismos de compensação usando a tecnologia e bastante criatividade.

Novos processos colaborativos

Não existem respostas prontas para qual a melhor forma de conduzir processos colaborativos nesse contexto e, certamente, com o passar do tempo, vamos perceber que elas vão depender do perfil e objetivo do grupo, mas existem referências atuais e importantes na sociedade de organizações com esses atributos.

Da comunidade nerd (usando a palavra aqui com muito carinho) que interage por meio de games, por exemplo, e compartilha valores, identidade, realiza trocas práticas e muito mais, às organizações digitais globais – veja o caso do Sleep Giants e como com uma boa dose de propósito e muita autonomia tem crescido em muitos países sem perder a consistência de suas ações.

Objetivos claros, grupos engajados, ferramentas que viabilizam e, muito, a comunicação diversa e aberta são um bom começo para facilitar processos colaborativos em ambientes digitais. 

Existem muitas ferramentas que podem fazer parte desse processo (Zoom, Mural, Miro, são alguns exemplos de dezenas delas) mas é muito importante que você pense no processo, planeje os pontos de interação, entenda como o grupo pode construir junto e como deve ocorrer a facilitação antes de focar em ferramentas!

Novas formas de conexão 

Eventos científicos, cafés, eventos de networking precisam ser substituídos por experiências novas e, para isso, nossos eventos online precisam se tornar muito mais participativos e explorar novos formatos.

Da mesma forma, nosso comportamento nesses ambientes e após esses ambientes precisa ser muito mais direto e consciente. Vamos conhecer novas pessoas, mas precisamos chamá-las a interagir após esses momentos, e alimentar essas novas conexões. Marcar uma interação direta e estar aberto a conversas desse tipo é fundamental.

Novas redes, novos hubs

Na Troposlab lançamos um movimento pela Inovação 4.0 e dentro desse contexto começamos a organizar eventos de interação entre gestores de inovação. São eventos com um número restrito de pessoas e processos focados na troca de experiências. Além disso, organizamos alguns cafés virtuais entre nossos clientes e parceiros com o mesmo objetivo. A inovação precisa se movimentar e se reinventar, pode ser protagonista desses novos formatos, já que o tema e o perfil das pessoas favorece (em geral o gestor de inovação tem um mindset voltado à flexibilidade e adaptabilidade).

Esse é um exemplo de rede que está se formando, já em um novo modelo, mas muitos outros podem existir. E redes como essa podem ajudar a preencher os gaps deixados pelas interações nos ambientes físicos – se tornam hubs digitais.

O importante agora é nos tornarmos conscientes de que processos que antes eram mais naturais, agora precisam ser pensados e induzidos. Existe a necessidade de desenvolver esses novos formatos, de nos abrir a novas experiências e de nos esforçar em alimentar uma nova rede. Essas ações têm impacto importante em grandes inovações, mas também nas oportunidades individuais de aprendizado e geração de insights para o dia-a-dia de trabalho e a carreira.

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Sou psicóloga e mestre em Administração. Trabalho com inovação desde 2005 e nesse caminho me formei também com o Steve Blank, Marc Stickdorn e Jurguen Appelo. Conhecendo inovação, comportamento, novas formas de gestão e design, repenso a gestão da inovação nas grandes empresas, com enfoque nas pessoas e ambiente, indo além de processos e ferramentas. Sou idealista, mãe, amante da boa música e da arte. Nas horas livres você pode me ver correndo por aí, viajando ou brincando feroz com balões de água.
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