A aceleração da Revolução Digital e a “Era das Máscaras”

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De plástico, de pano, descartável, lavável, na boca, no queixo, branca, estilizada. Independente do tipo, você com certeza já usou (ou deveria ter usado) uma máscara. Mas essa não é nem de perto a maior mudança que aconteceu na sua vida.

Ao longo do período de quarentena, praticamente todas as empresas precisaram reinventar a forma que trabalhavam ou fecharam as portas. Escolas, médicos e tudo que mais que podia virar online virou. O comércio virou e-commerce. A automação industrial virou prioridade. E mesmo com todas essas mudanças, eu ainda acho que a crise da Covid-19 não mudou a nossa realidade. Ela acelerou as mudanças que já estavam acontecendo.

Ao longo da história da humanidade, vimos pelo menos outras duas grandes revoluções que mudaram absurdamente a forma com que as pessoas viviam e, desde antes da pandemia, já estava claro que estávamos vivendo uma mudança de era.

Revolução Neolítica

Há cerca de 10.000 anos, saímos da última era glacial, a temperatura no planeta esquentou e vivemos um grande crescimento populacional. Graças ao aprendizado acumulado de séculos, o ser humano começou a dominar a agricultura e com isso vivemos uma revolução sem precedentes.

O domínio da agricultura não foi apenas um avanço tecnológico. Ele mudou drasticamente a maneira com que a nossa sociedade se organizava e com isso permitiu outros grandes avanços.

Antes da agricultura, vivíamos em tribos nômades, sempre vagando em busca de alimento. As plantações permitiram que algumas tribos se estabelecessem em determinadas regiões. Crescendo e se tornando mais complexas. Com a agricultura surgiram as cidades.

Em uma tribo, eram necessários caçadores, coletores, cozinheiros, guerreiros e mais uma meia dúzia de “profissões”. Em uma cidade, várias novas necessidades surgiram e com elas várias outras profissões (agricultores, pastores, construtores, comerciantes, policiais, etc).

Em uma tribo nômade, o constante deslocamento, as caçadas e as brigas com outras tribos por territórios de caça faziam com que as mortes fossem constantes. Portando, era muito comum que as crianças fossem criadas por toda a tribo, já que seus pais poderiam morrer em qualquer um desses perigos. Já nas cidades, a segurança aumentou. Muros eram erguidos, guerreiros não estavam sempre fora caçando e assim as crianças ficavam perto dos seus pais. Nascia aí o conceito de família.

Resumo das grandes mudanças:

  • Diminuição da fome;
  • Aumento da expectativa de vida;
  • Surgimento das cidades;
  • Muitas profissões novas;
  • Conceito de família.

Revolução Industrial

Durante os séculos 18 e 19, uma série de mudanças transformaram uma sociedade artesanal em uma industrial, mas mais do que uma automatização esse foi um período de um rearranjo da nossa sociedade.

Antes da Revolução Industrial, a produção era feita através de processos artesanais, o que exigia uma grande especialização dos artesãos. Fazer uma armadura, um armário ou uma carruagem eram tarefas que exigiam anos de aprendizado.

No entanto, à medida que máquinas foram construídas para facilitar a construção de produtos, as tarefas começaram a ser mais repetitivas e com isso mais fáceis de serem executadas, perdendo assim o seu valor. Quem possuía mais máquinas, produzia mais e podia se dar ao luxo de pagar menos. Migramos de um cenário de mestres e aprendizes para um cenário de patrões e empregados.

Com o crescimento dessas unidades de produção (indústrias), o gerenciamento ficou mais complexo, os avanços tecnológicos demandavam mais estudos e, além de operários, as fábricas começaram a demandar especialistas. Várias profissões surgiram (engenheiros, administradores, advogados, etc) e houve a necessidade de criação de locais para formação desses profissionais. As universidades ganharam importância e se multiplicaram para atender essa demanda.

Por fim, houve uma migração cada vez mais forte das pessoas do meio rural para o urbano. Além das automatizações do campo, as oportunidades de trabalho, acesso a produtos e opções de lazer nas cidades era infinitamente maiores do que no campo. O mundo se tornou urbano.

Resumo das grandes mudanças:

  • Aumento da produção;
  • Diminuição de preços de produtos;
  • Surgimento da relação entre patrões e empregados;
  • Proliferação das universidades;
  • O mundo se tornou urbano.

Revolução Digital

Conforme conversamos antes, a chamada “Revolução Digital” não começou em 2020, ela já vinha se estabelecendo há algumas décadas com o surgimento da internet. A crise da Covid-19 só está acelerando esse processo.

O mundo está se tornando cada vez mais digital. A infraestrutura de internet só cresce, a velocidade das conexões é cada vez maior e com todo esse crescimento aumentam também as possibilidades de mudança.

Em um mundo digital, muitos podem trabalhar de onde quiserem sendo assim, porque enfrentar o trânsito de manhã para chegar no escritório e passar o dia na frente do computador. Aliás, porque morar na grande cidade com todos os seus problemas se você teria uma qualidade de vida melhor em uma cidade menor? Será que teremos uma redistribuição das pessoas nas cidades? De forma bem inicial, já estamos vendo isso acontecer. Com milhares de empresas instituindo de forma forçada o home office, quem pode está trabalhando do seu sítio e não do seu apartamento na região centro-sul. Ou foi para casa de parentes no interior, onde tem mais espaço para as crianças.

Só para exemplificar, Google e Facebook instituiram o home office para seus funcionários até 2021. E empresas menos tecnológicas como a seguradora Nacionwide Insurance, dos EUA, já anunciaram o fechamento de vários dos seus prédios de escritórios pelo país.

A confiança é algo que muda muito também. Muitas empresas tinham (ou ainda tem) uma grande desconfiança com o trabalho remoto por acharem que seus funcionários não iriam trabalhar. Na Nacionwide por exemplo, eles mediram a perda de produtividade pelo trabalho remoto nesses meses de isolamento e viram que foi de 5%. Uma conta fácil mostra que os 20% de redução de custos que tiveram no mesmo período justifica a escolha.

Outro ponto está relacionado à ausência de barreiras geográficas. Se a internet conecta o mundo inteiro, o meu filho pode se formar em uma escola de outro país. Um médico pode atender um paciente que está distante. Isso resolve vários problemas de indisponibilidade de acesso a oportunidades, que causa a desigualdade entre países ou regiões.  Já estamos vendo de uma semana para outra as escolas particulares se tornarem online para garantir as mensalidades. Além disso, médicos de várias especialidades estão fazendo ao menos parte dos seus atendimentos de forma remota.

Mesmo no caso de diferenças entre classes sociais, a digitalização do mundo pode criar cenários que aumentem a mobilidade social. Hoje por exemplo, todo o conhecimento que alguém precisa para saber programação pode ser acessado de forma gratuita pela internet. Esse conteúdo está distribuído e pouco organizado, mas ele está disponível. A tendência é que surjam modelos de negócios de educação que entendam que, ao invés de ensinar 1.000 alunos dessa região, é possível criar processos para ensinar 1.000.000 de alunos espalhados pelo mundo, focando em ter os melhores professores e as melhores metodologias de ensino. Como tudo na internet, tende a ser algo mais barato, por retirar custos como imóveis, refeitórios e limpeza. Menos custos, menor a mensalidade e mais acessível o ensino.

Em ambientes digitais, os negócios já nascem com automatizações no seu DNA, sendo assim as empresas não precisam crescer em número de pessoas na mesma proporção que crescem em faturamento. Assim, ao invés de grandes empresas com muitos funcionários, surgem empresas com menos pessoas. Mais empresas = mais empreendedores. Quantos novos empreendedores não tem surgido por necessidade, ao terem perdido os seus empregos nas últimas semanas? Infelizmente, muitas empresas entenderão que não precisarão de recontratar todas as pessoas que demitiram para manter a produtividade.

Resumo das grandes mudanças:

  • Redistribuição da população;
  • Queda das barreiras geográficas;
  • Mobilidade social;
  • De empregados a empreendedores.

E com certeza, muitas outras mudanças virão. Mas cada vez que reflito mais sobre isso, reforço que a crise da Covid-19 não trouxe essas mudanças, só acelerou.

Aliás, tem sim algo novo que não víamos acontecendo antes dessa crise: as pessoas passaram a usar máscaras. Bem-vindo à era das máscaras!

Por |2020-05-21T11:45:26-03:0021/05/2020|transformação digital|

Sobre o Autor:

Pedro Teixeira
Diretor de Aceleração
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