Estamos passando por um momento único no Brasil e no mundo em que, ao mesmo tempo, enfrentamos uma crise financeira e sanitária, e diversos movimentos contra o racismo e a LGBTfobia estão ganhando visibilidade. Esses movimentos reacenderam a discussão nas organizações sobre Diversidade & Inclusão (D&I), paralelamente ao enfrentamento dos desafios econômicos sem precedentes no mundo. A partir do texto “A importância da diversidade para inovar”, percebemos um pouco da relação direta entre diversidade e inovação e entendemos que elas são completamente dependentes entre si. Neste artigo, iremos ver como as empresas que praticam a diversidade e inclusão de forma efetiva estão mais preparadas para superar crises. 

As conexões de valor entre a empresa e os seus clientes

O primeiro ponto que precisamos observar é a capacidade das empresas de se conectar com os seus clientes, de forma a entender com clareza as suas demandas, os seus problemas ou as suas dores. Isso será a base para o desenvolvimento de soluções cada vez mais assertivas e bem sucedidas no mercado. Entretanto, quando falamos em Diversidade & Inclusão, percebemos que existem nichos de mercado que ainda estão carentes de soluções inovadoras e adequadas à sua realidade. Para entendermos um pouco mais do potencial de compra desses nichos, aqui vão alguns dados:

  • Em 2018 a comunidade negra movimentou cerca de R$1,7 trilhão no Brasil, segundo consultoria Etnus, que é o equivalente a 28% do PIB.
  • O potencial de consumo do mercado LGBT é de cerca de R$418,9 bilhões por ano, segundo dados de 2015 do estudo realizado pela empresa norte- americana Out Leadership.
  • Até 2010 o Brasil tinha quase 46 milhões de pessoas com alguma deficiência mental/intelectual ou alguma dificuldade em enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus, segundo o último Censo realizado no país.
  • O poder de consumo dos moradores de favela é de aproximadamente R$119,8 bilhões por ano, segundo os institutos Data Favela e Locomotiva.
  • As mulheres são responsáveis pela decisão de compras de abastecimento em 96% dos lares brasileiros, segundo levantamento realizado em 2018 pela Nielsen.

Além disso, as gerações mais novas estão tomando as suas decisões de compra influenciadas com a sua conexão com as marcas. Segundo estudo realizado pela McKinsey em 2017, a geração Z deixaria de comprar e divulgar marcas de empresas cujas campanhas são consideradas machistas (81%), racistas (79%) ou homofóbicas (76%).

Esses dados nos mostram que as empresas têm diversas oportunidades de gerar inovação e valor para os nichos de mercado, entretanto, para que isso aconteça, elas precisam entender melhor as dores do seu cliente, entender a sua jornada e a sua vivência com os problemas. Basicamente, as empresas precisam gerar empatia com o seu cliente, essa é uma das bases do Design Thinking, um modelo de solução de problemas usualmente utilizado para gerar inovação.

Diversidade e Inclusão como fator chave para gerar inovação

Organizações que investem em D&I tendem a ter times com visões mais diversificadas e maior habilidade de resolver problemas, pois a diversidade pode trazer múltiplas perspectivas sobre o problema. Como consequência, as chances de surgirem soluções criativas e inovadoras serão maiores do que em times mais homogêneos, segundo estudo da McKinsey (Diversity Still Matters, 2020). Devido à maior capacidade em resolver problemas, as empresas que mais praticam a D&I tendem a performar melhor, como mostra o estudo da McKinsey (Diversity Wins, 2020) sobre a quantidade de mulheres em times executivos e a capacidade das empresas em relação da sua performance financeira.

gráfico de comparação de performance financeira de empresas com times com mais ou menos diversidade e inclusão

Figura 1. Comparação de performance financeira em relação à proporção de mulheres nos times executivos. Fonte: Diversity Wins, McKinsey, 2020.

Pelo fato dos colaboradores se sentirem mais confortáveis e seguros nos ambientes de trabalho, as companhias diversas são mais suscetíveis a ter times mais engajados, colaborativos, participativos, focados nos fatos e em processá-los com mais cuidado. Por fim, esse time tomará decisões mais assertivas e com melhor qualidade, em comparação com times homogêneos.

Algumas pesquisas indicam que times mais diversos são mais inovadores, mais capazes em antecipar mudanças das necessidades dos consumidores e dos padrões de consumo. Como resultado, serão capazes de levar novos produtos e serviços ao mercado, potencialmente gerando uma vantagem competitiva. Como exemplo, em um estudo realizado na Espanha com 4.277 companhias num período de dois anos, os pesquisadores analisaram o nível de diversidade de gênero nos times de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), por meio de modelos estatísticos, eles concluíram que as companhias com mais mulheres no time estão mais propícias a colocar inovações radicais no mercado. Em outro estudo, realizado com 7.615 que participaram do London Annual Business Survey, os autores concluíram que o alto nível de diversidade cultural é um benefício para a capacidade inovadora das empresas (Why Diverse Teams Are Smarter, Harvard Business Review, 2016).

Outros dois pontos que são importantes perceber sobre times diversos é a sua maior propensão (150%) em propor novas ideias e testar novas formas de fazer as coisas e maior suscetibilidade (75%) a ter uma cultura de liderança pró-trabalho em equipe (McKinsey). Essas são algumas características presentes na cultura de times voltados à inovação e que podem se tornar um diferencial para a empresa.

impactos da diversidade e inclusão na performance dos times

Figura 2. Impacto da diversidade na performance dos times. Fonte: Diversity, Equity and Inclusion 4.0, World Economic Forum, 2020.

A diversidade e inovação como fatores chave para superar a crise

A crise causada pela pandemia da COVID-19 trouxe grandes desafios para as empresas, desde quedas bruscas no faturamento, até dificuldades em se adaptar ao novo normal. Tudo isso aconteceu muito rápido, por isso, as empresas precisam ter o suporte da inovação para desenvolver soluções para os novos desafios que surgiram. Após a crise de 2008-2009, as chaves do sucesso das organizações para superar a crise foram a liderança pró-trabalho em equipe e a habilidade de definir com clareza a direção que a companhia iria seguir, ambas as dimensões em que a Diversidade & Inclusão exercem um papel vital.

Esse momento que enfrentamos está trazendo uma mudança profunda na nossa forma de trabalhar, nos modelos de negócio e nos valores que enxergamos nos produtos. Por isso, esta é a hora de criarmos um novo comprometimento com a inovação e a Diversidade & Inclusão, pois ambas são a chave do sucesso para as empresas.