Se Shakespeare fosse hoje um executivo de uma grande empresa, talvez sua famosa frase seria: “To grow or not to grow, that is the question”.

O crescimento é algo almejado pelas mais diferentes empresas. Ele pode ser medido, por exemplo, pelo faturamento, lucro líquido e valor de mercado. Os executivos, principais responsáveis pelas decisões mais relevantes, são avaliados, em grande medida, em relação ao crescimento de suas organizações. Logo, acompanhar os indicadores de crescimento é algo importante.

Se observarmos as 10 organizações não-financeiras mais valiosas do mundo atualmente (número de ações emitidas pela empresa multiplicado pelo valor dessas ações), veremos Alibaba, Amazon, Facebook e Alphabet – holding que controla, por exemplo o Google e o Youtube, dentre outras. Essas empresas são reconhecidamente inovadoras e conseguiram criar mercados mundiais gigantescos em um curto espaço de tempo. Esse fenômeno despertou o interesse de muitos estudiosos para tentar explicar como empresas fundadas há apenas alguns anos (Google e Alibaba tem pouco mais de 20 anos e o Facebook ainda é um adolescente) conseguiram ter um crescimento exponencial tão significativo.

Crescer exponencialmente não necessariamente é algo novo. A novidade é a existência de tantas empresas que têm crescido assim entre as mais valiosas do mundo. Até o final dos anos 90 o cenário era outro. A lista mundial das empresas não-financeiras mais valiosas era dominada pelas gigantes de petróleo, energia e pela IBM, Procter & Gamble, General Eletric, dentre outras. Até hoje essas empresas continuam grandes. Ou melhor, continuam gigantes. Nesse período, a lista das mais valiosas do mundo era predominantemente composta por empresas que cresceram de maneira sustentável ao longo de muitas décadas.

O crescimento propriamente dito não era exponencial, mas sim linear ou algo próximo disso. Então, para se alcançar o grupo das maiores mundiais, as empresas precisavam ter décadas de atuação. Empresas com idade de adolescente ou, até mesmo, com cerca de 20 anos, dificilmente entrariam nessa lista. O que se observa agora é que tem sido cada vez mais comum o surgimento de várias empresas novatas nesse grupo de elite. Nesse sentido, o conceito de organizações exponenciais ganhou importância.

O que é uma organização exponencial?

No livro “Exponential Organizations“, Salim Ismail, Michael Malone e Yuri Geest destacam que uma organização exponencial é uma empresa que o impacto (ou resultado) alcançado é desproporcionalmente grande – pelo menos dez vezes maior – comparado ao de seus pares, devido ao uso de novas técnicas organizacionais que alavancam as tecnologias aceleradas.

Por que preciso saber sobre organizações exponenciais?

Um leitor desavisado pode chegar a uma conclusão equivocada. Precipitadamente poderá dizer coisas do tipo: “não devo me preocupar, pois não trabalho em empresas como essas de TI”; “muito interessante, mas isso não vai mudar a minha vida profissional, pois trabalho em uma grande empresa, muito sólida e que possui um mercado praticamente garantido para os próximos anos”.

Cuidado. Mesmo que você hoje trabalhe em uma multinacional, com atuação global, em um setor consolidado, com produtos e serviços com reconhecido sucesso ao longo de vários anos, você deve sim se preocupar. Empresas de transporte, automóveis, serviços financeiros (bancos, seguradoras), saúde, hotéis já podem ser consideradas como organizações exponenciais. Elas têm criado mudanças bruscas em setores que até alguns anos atrás eram considerados como extremamente sólidos.

Dito de outro modo, organização exponencial é um conceito que deve sim ser tratado com a devida cautela. Deve-se demandar esforços para entender como uma empresa clássica, tradicional, com histórico de sucesso de crescimento linear precisa se adaptar para conseguir sobreviver no mercado. Profissionais das mais variadas competências, formação e experiência devem sim ficar atentos a esse conceito e refletirem até que pontos serão capazes de ajudar a criar mais organizações exponenciais. Para tanto, então o primeiro passo é entender quais são as suas características básicas.

Quais são as principais características das organizações exponenciais?

Após analisarem mais de 100 organizações exponenciais,  perceberam a existência de 11 aspectos comuns. Desses aspectos, cinco são internos à empresa (como a lógica de testar as soluções inovadoras em desenvolvimento, as interfaces entre as diferentes áreas, a autonomia concedida aos times de projeto e as relações sociais internas). Outros cinco são aspectos externos (como o engajamento externo, o fomento à criação de comunidades, a atração de especialistas sob demanda, a capacidade de fazer uso de ativos de terceiros) e um último aspecto que seria a base de tudo, a existência de um propósito transformador massivo ou propósito máximo de transformação (conforme algumas traduções para o português).

Como se compõe o propósito transformador massivo das organizações exponenciais

(Imagem extraída da versão em inglês do livro: Organizações exponenciais: por que elas são 10 vezes melhores, mais rápidas e mais baratas que a sua.)

Cada um desses aspectos é muito bem explicado por Salim Imail, Michael Malone e Yuri Geest. O que se percebe claramente é que nenhuma organização exponencial obrigatoriamente é perita em cada um desses onze aspectos. É sempre bom analisar com ceticismo modelos que procuram mostrar receitas ou passos para o sucesso. O que esses autores comunicam é que essas organizações conseguem equilibrar muito bem seus esforços para cada um desses aspectos. De uma forma ou de outra, todos esses aspectos estão no radar do alto comando dessas organizações.

Vários desses onze aspectos já são destacados há alguns anos como fundamentais para promover o crescimento em larga escala. Por exemplo, há muito se fala da importância de se fomentar a autonomia das equipes envolvidas nos projetos com maior potencial de gerar resultados relevantes em um curto espaço de tempo (em geral, são os projetos mais inovadores). Não dá para desenvolver um projeto de inovação se a equipe que está à frente ficar presa as amarras estruturais comuns em uma grande empresa. Se toda vez que um projeto de inovação com alto potencial, por exemplo, demandar um novo teste, mais recursos, mais parceiros envolvidos, a equipe precisar pedir autorização do C-level ou do conselho de administração, dificilmente os resultados esperados serão alcançados em tempo hábil.

Por outro lado, outros aspectos destacados pelo trio, Salim Imail, Michael Malone e Yuri Geest, são relativamente novos. Por exemplo, recentemente muito tem se falado sobre importância de se incorporar a lógica de experimentação no desenvolvimento dos projetos e também da capacidade de se atrair talentos sob demanda.

No primeiro caso, a experimentação é baseada nos princípios de startup enxuta (por exemplo, criam-se hipóteses, que são testadas rapidamente e seus resultados mensurados rigorosamente). Adotar tais princípios é uma importante opção quando se precisa tomar uma decisão relevante em um projeto envolto em muitas incertezas. 

A capacidade de se atrair talentos sob demanda tem forte relação com o que alguns especialistas acreditam que serão as relações de trabalho no futuro. Elas são mais pautadas por necessidades pontuais de trabalho que as organizações podem suprir por meio da contratação temporária de profissionais altamente especializados. Isso vai muito além de um mero pensamento focado em reduzir os custos de mão de obra ou terceirização do trabalho (as principais críticas que sofrem os defensores desse aspecto). A ideia básica é poder contar com pessoas com competências específicas que os projetos inovadores de alto impacto irão demandar em situações pontuais.  Muito embora esse seja um tema extremamente polêmico, pois influencia a estrutura básica de relação tradicional de trabalho, é de se imaginar que tal relação passará por profundas mudanças nos próximos anos.

E agora? O que fazer?

Antes de mais nada, muita calma nessa hora. Da noite para o dia sua empresa dificilmente conseguirá se destacar em todas os aspectos necessários para se transformar em uma organização exponencial. Trata-se de um processo lento e muito focado no aprendizado organizacional (algo extremamente complexo). Ninguém sabe ao certo estimar até que ponto as empresas tradicionais se manterão em posição de destaque em seus mercados. Como o mercado é dinâmico, mudanças sempre ocorrem. Surgem novos serviços, mercados, concorrentes, a sua empresa se renova, etc. Um caminho a se pensar é como construir agora as bases para que sua empresa não fique para trás na medida em que tais mudanças ocorrem. Os onze aspectos são um ótimo norte. Eles oferecem clareza que estar preparado para atuar em mercados cada vez mais dinâmicos, devem-se ser realizadas tanto mudanças internas às empresas quanto mudanças, por exemplo, em como se interagir com sua comunidade, como fazer uso de ativos compartilhados (evitando assim investimentos vultuosos em CAPEX e como engajar seus inúmeros parceiros.

É simples fazer isso? Obviamente não é. Quando devemos começar a nos mover? Agora? Bom, a priori, sim, mas desde que seus passos sejam bem coordenados e esteja claro o que sua empresa almeja buscar. Organizações exponenciais não visam o crescimento simplesmente para alcançar um valor de mercado maior em um curto espaço de tempo. Elas almejam fazer mudanças mais estruturais que tocam no âmago da cultura da própria organização. Elas não visam o lucro pelo lucro, mas sim o lucro como forma de viabilizar o alcance de um propósito maior.