É de conhecimento geral que o Google é uma das empresas mais inovadoras do mundo. Na lista das empresas mais inovadoras de 2020 realizada pela BCG, eles então em segundo lugar. Essa companhia não só revolucionou a maneira de se fazer pesquisas online, como está constantemente lançando novos produtos e serviços. E não é uma coincidência o Google ter chegado nesse patamar: a empresa utiliza tanto o modelo top-down innovation quanto o modelo entrepreneurial innovation para maximizar seu potencial inovador e para incentivar todos seus funcionários a pensarem e agirem como empreendedores. Antes de entrarmos na explicação detalhada destes, precisamos falar sobre um outro ponto importante: o potencial de inovação das empresas. 

Potencial de inovação

O potencial de inovação de uma empresa pode ser definido como a melhor combinação e interação entre os diversos recursos que ela possui à sua disposição, como mão de obra, propriedade intelectual, materiais físicos, seu próprio mercado, recursos financeiros, etc. 

No Google, por exemplo, eles possuem mais de 110 mil funcionários nas mais diversas funções que, além de trazer expertise nas suas respectivas áreas, trazem também seus próprios interesses e paixões, o que tem se mostrado essencial para a inovação na empresa. Eles possuem um enorme know-how em várias áreas e também adquiriram um grande número de datacenters, hardwares e softwares. Os milhões de usuários diários do Google não só são importantes para gerar receita, mas para também testar e receber feedback sobre suas inovações. Além disso, eles nutrem o ecossistema de negócios no qual eles estão inseridos, permitindo que outras inovações prosperem e também agregando serviços adicionais aos seus próprios produtos. A empresa também utiliza do grande recurso financeiro que ela possui para investir em ideias inovadoras e projetos especulativos.

Modelos de inovação do Google

  • Modelo top-down

O modelo top-down é normalmente adotado por corporações que atingem certo grau de maturidade e de estabilidade. Ele é caracterizado pela criação de unidades voltadas para pesquisa e desenvolvimento, pelo recrutamento de pesquisadores, pela realização de projetos caros, ambiciosos e de longo prazo escolhidos pela alta gestão e por ser um ambiente fechado dentro da própria empresa, sem o compartilhamento de muitas informações com outras áreas.

Uma inovação do modelo top-down realizada pelo Google foi sua ferramenta de tradução. Para solucionar o problema da tradução na linguagem da ciência, a empresa contratou vários líderes da indústria e permitiu que eles inovassem no seu próprio ritmo. À medida que essas inovações ficam prontas, elas são introduzidas aos produtos da empresa. Outro exemplo bem famoso é projeto do carro autônomo, que é conduzido por um professor da Universidade de Stanford, nos EUA. Esse tipo de inovação, portanto, gera resultados muito significativos, mas exige comprometimento a longo prazo, altos investimentos e alto nível de expertise.

  • Modelo entrepreneurial innovation

O modelo entrepreneurial innovation é adotado também por empresas já bem estabelecidas, que estão preocupadas em entregar não só inovações incrementais referentes aos produtos e serviços já existentes. Para gerar inovações disruptivas, a empresa incentiva e investe para que todos os funcionários da organização realizem projetos de inovação. Esse modelo seria o que chamamos comumente de intraempreendedorismo. 

No caso do Google, a empresa tenta criar uma experiência parecida à de uma startup, na qual seus funcionários precisam competir por investimentos e recursos, lidar com produtos competidores e, em caso de sucesso, ganham uma recompensa financeira. O Google possui dois princípios no seu modelo entrepreneurial innovation. O primeiro é “o negócio do Google é inovação”, ou seja, a empresa não quer ser vista como sendo do segmento de tecnologia, de comunicações ou de internet, elas quer ser vista como uma empresa de inovação. O segundo é “espere inovação de todos os funcionários”, porque eles acreditam que as melhores ideias não vêm dos líderes, e que o papel deles é incentivar e possibilitar que as ideias que surjam sejam desenvolvidas.

Práticas do modelo entrepreneurial innovation

Segundo o antigo CEO do Google, Eric Schmidt, a inovação não pode ser planejada. O que é possível fazer é se esforçar ao máximo para estar no lugar certo e preparado. Mas o que exatamente significa isso? Significa que a organização inteira deve estar preparada para incentivar e apoiar o desenvolvimento de inovações e do intraempreendedorismo. O Google faz isso por meio de 5 práticas: estrutura organizacional horizontal; política do 20% do tempo; criação de ambientes abertos de desenvolvimento; utilização de ferramentas para lançamento, testagem e coleta de feedback; e premiações para inovações que obtenham sucesso.

Como muitas empresas tradicionais, o Google é dividido em áreas como engenharia, operações e financeiro, e com cargos como vice presidente, diretor e gerente. Contudo, na cultura da empresa é desejado que as pessoas se reportem ao seu superior mais alto possível (é comum que 30 ou 40 pessoas recorram diretamente a um mesmo gerente ou ao vice-presidente). O papel desse superior é guiar e conectar grupos dentro da empresa, e o poder de decisão sobre desenvolvimento de produtos, por exemplo, não é concentrado neles. Isso pode gerar um considerável caos em alguns momentos, mas a empresa vê isso com bons olhos. Ela acredita que o caos é necessário para a inovação e, por mais que isso possa resultar em projetos duplicados, por exemplo, eles acreditam que acelera o processo.

O Google possui uma política na qual seus engenheiros podem dedicar 20% do tempo para o desenvolvimento de projetos não relacionados à sua atividade rotineira. Fica a critério dos próprios funcionários a gestão desse tempo: alguns usam menos desse tempo disponível, alguns usam mais, outros preferem deixar essas horas acumularem para poder desenvolver um projeto ininterruptamente. A empresa não controla essas horas porque o principal objetivo dessa política é incentivar os funcionários a pensar como empreendedores, e contar quanto tempo eles gastam para fazer isso. É comum que equipes sejam formadas a partir de um projeto e que elas se organizem como startups. Metade dos produtos e serviços do Google, incluindo o Gmail, vieram de projetos gerados por essa política.

Uma das preocupações do Google é que seu ambiente de desenvolvimento seja aberto para todos seus engenheiros. Para isso, todos utilizam uma mesma base de códigos e isso permite que funcionários trabalhando em um produto possam reutilizar códigos de outros serviços, misturar códigos e criar novos produtos através da combinação de elementos já existentes. Contudo, as ferramentas de desenvolvimento de software e de testagem disponíveis no mercado não conseguem atender a realidade do ambiente de desenvolvimento do Google em termos de tamanho, diversidade e velocidade. E a solução encontrada para isso veio com o intraempreendedorismo. Há alguns anos, um grupo de funcionários criou um dos bens mais valiosos do Google, que é um método chamado  Engineering Productivity que permite desenhar e implementar as ferramentas e a infraestrutura necessária na realidade de desenvolvimento da empresa.

No intuito de funcionar como uma startup, o Google possui uma filosofia de lançamento rápido de produtos. Eles incentivam que seus funcionários lancem seus projetos o mais rápido possível que a partir disso façam iterações. Além disso, eles possuem uma plataforma chamada Google Labs para que essas ideias sejam disponibilizadas para o resto da empresa e para o público geral e se possa obter feedbacks deles. Isso também ajuda com que ideias que não possuem um bom potencial de desenvolvimento falhem de maneira rápida. Alguns produtos já bem estabelecidos, inclusive, possuem sua própria plataforma para disponibilização e coleta de feedbacks de ideias, como Google Maps Labs e o YouTube TestTube. Por meio dessas plataformas, criadores podem testar seus produtos, obter dados e utilizá-los no momento de pedir investimento para seu projeto.

Com o intuito de incentivar e reconhecer conquistas do intraempreendedorismo, o Google oferece premiações para as startups internas que obtenham sucesso. O fundador de um projeto pode receber até 1 milhão de dólares. Existe uma preocupação da empresa, entretanto, com a maneira de lidar com o fracasso. Eles sabem que as falhas fazem parte do processo de inovação, e que o sucesso só existe porque elas também existem. Um bom exemplo é o do Google Wave, ferramenta que veio para substituir o e-mail e, apesar de não ter obtido êxito, foi útil para o desenvolvimento de outras novas ideias.

O caso do Google diz respeito a uma empresa específica em um contexto específico, o que significa que seu exato modelo dificilmente pode ser replicado. Contudo, podemos ver a importância que o intraempreendedorismo teve no sucesso dessa empresa e que sem o incentivo a projetos internos de inovação, o Google não teria chegado a seu atual patamar. Projetos de intraempreendorismo, como se observa nos exemplos acima,, exigem comprometimento, investimento e engajamento de todas as partes envolvidas. Se realizado com bom planejamento e gestão, pode trazer resultados surpreendentes. Se quiser saber como adequar ações como essas à realidade da sua empresa, basta entrar em contato conosco.


Referências bibliográficas: Entrepreneurial Innovation at Google – Alberto Savoia e Patrick Copeland (2011) – IEEE Computer Society