Diversas grandes companhias estão enfrentando desafiadores obstáculos no P&D para entregarem soluções que possam responder a problemas cada vez mais complexos. A confiança de que elas podem desenvolver produtos inovadores sozinhas pode as levar a um caminho que potencialmente sufocará a verdadeira inovação. É por isso que algumas multinacionais, como a Nestlé, Johnson&Johnson e AkzoNobel desenvolveram programas de inovação aberta com o objetivo de buscarem ideias fora da empresa. Seguindo a mesma linha lógica da inovação em rede, a inovação aberta é um termo que foi criado recentemente por Henry Chesbrough (2003) para caracterizar as indústrias e organizações que buscam melhorar o desenvolvimento dos seus produtos e serviços por meio da promoção de ideias, pensamentos, processos e pesquisa abertos com a colaboração interna e externa.

A inovação aberta é baseada na colaboração, em que se busca novas ideias, conhecimentos, tecnologias e recursos com atores externos, inclusive com concorrentes, diferente do que acontece na inovação convencional em uma estrutura verticalizada de modelo de P&D, em que as empresas contam apenas com os conhecimentos e recursos próprios. No seu vídeo para o TED, Howard Rheingold mostra um pouco mais sobre o poder da colaboração, acesse o link para o vídeo aqui.

Além de aumentar o potencial do desenvolvimento de produtos inovadores, a inovação aberta também possibilita que a empresa amplie a sua visão de negócio, receba talentos externos e diminua os vícios da cultura organizacional. Na figura abaixo é mostrado um exemplo das interações que ocorrem em uma organização que aplica a inovação aberta. E com tantas interações com diversos atores, essa estrutura pode se tornar complexa, por isso os heads de inovação devem criar estratégias para fazer uma boa gestão da inovação aberta.

Imagem mostra as novas possibilidades da inovação aberta

Henry Chesbrough, 2004.

 

Ter um objetivo claro e bem definido da empresa com a inovação aberta torna as tomadas de decisão e a sua criação mais fácil para os heads de inovação. Normalmente essa tomada de decisão ocorre em momentos de crise (percepção de uma necessidade urgente de modernização) ou em momentos de visão compartilhada de oportunidade (possibilidade de entrada em novos mercados), como apontou o Joe Tidd e John Bessant (Gestão da Inovação, 2015).

As empresas que desejam estabelecer uma abordagem de inovação aberta transformativa devem considerar uma estrutura com 5 elementos:

  1. Característica da rede de contatos – número de participantes (instituições ou individuais) e alcance geográfico da rede;
  2. Talento – nível de maturidade das capacidades e habilidades necessárias e rigor do critério de seleção para admitir novos participantes na rede;
  3. Gestão da propriedade intelectual (PI) – nível de entendimento do escopo e definição da PI, nível do rigor estabelecido sobre a gestão da PI, formalidade dos acordos e flexibilidade dos resultados da participação;
  4. Contribuições e impactos dos participantes – influência dos participantes da rede nas atividades de inovação;
  5. Governança – revisão e aprovação dos processos de inovação científica, processos de governança dos parceiros da rede relacionados à PI e governança da PI de ex membros da rede.

Falaremos mais detalhadamente sobre esses elementos a seguir e sobre como identificar o momento da empresa frente a cada um deles é fundamental para uma boa gestão da inovação aberta.

Características da rede de contatos

O compartilhamento das informações é uma parte vital da estrutura de inovação aberta e as alianças geradas influenciam bastante no sucesso da inovação. Por isso é importante entender duas características principais da rede de contatos, que é a complexidade e o alcance geográfico. Organizações com parceiros de setores diferentes são mais abertas e tendem a gerar mais inovações radicais, enquanto as organizações com vários parceiros do mesmo setor são mais densas e tendem a gerar mais inovações incrementais. As redes mais abertas tendem a ser mais complexas de gerir, pois envolvem muitos participantes com culturas diversas e contextos sociais diferentes.

Talentos

Como a inovação aberta é uma abordagem que envolve diversos atores, é importante que este envolvimento também seja multidisciplinar e com talentos de diversas habilidades e conhecimentos. As organizações que desejam buscar novos atores para a sua rede, devem determinar a quantidade de participantes e o nível de expertise técnica de acordo com o objetivo dessa abordagem. As empresas que têm um desafio bem técnico e delimitado, tendem a buscar parceiros com conhecimentos, experiências e técnicas mais específicas. Enquanto as organizações com um desafio mais abrangente, tendem a buscar parceiros em toda a comunidade científica ou o público em geral.

Gestão da Propriedade Intelectual (PI)

O envolvimento de diversos atores na Inovação Aberta traz diversos desafios para a gestão da propriedade intelectual envolvida. Questões contratuais são as mais delicadas e complexas de serem resolvidas, por exemplo, quais seriam as partes envolvidas que teriam direito à propriedade intelectual de produtos inovadores que forem desenvolvidos?

É importante que nessa relação de colaboração as informações contratuais sobre propriedade, exclusividade, áreas de aplicação e compensação financeiras estejam claras para todos os envolvidos e interessados. Além disso, para que a inovação aberta seja bem-sucedida, é necessário que as cláusulas contratuais de propriedade e manutenção dos direitos legais sejam previamente definidas. Isso irá ajudar a aumentar a confiança dos membros da rede e consequentemente ajudará a reter os participantes e atrais novos membros.

Contribuições e impactos dos participantes

Em um programa de inovação aberta, as organizações envolvidas devem considerar qual participante em potencial poderá contribuir mais com a rede e qual o impacto que cada contribuição trará para o aumento das chances de sucesso no desenvolvimento do produto. Cada participante na inovação aberta poderá contribuir de formas diferentes, pois os potenciais envolvidos são variados, eles podem ser:

  • Parceiros na pesquisa – universidades, centros de pesquisa independentes, institutos públicos de pesquisa, fundações de amparo à pesquisa, entre outros.
  • Parceiros no negócio – clientes, startups, parceiros ou alianças estratégicas, fornecedores, concorrentes e outros atores da cadeia de valor.

É importante que todos os participantes da rede de inovação aberta deixem claro em qual estágio de desenvolvimento do produto pretendem colaborar.

Governança

Os membros da rede de inovação aberta podem ter diferentes estruturas organizacionais internas e objetivos. Além disso, cada ator pode ter a sua governança interna específica com diferentes níveis de hierarquia interna. Por isso é importante que, para aumentar as chances de sucesso da rede, a sua governança e estrutura organizacional sejam independentes. Algumas questões sobre a governança precisam ser definidas no início da criação da rede, que são: os direitos de tomada de decisão e propriedade; estrutura organizacional; compromisso de recursos de cada participante; prazos e condições dos direitos de rescisão.

É importante também que sejam estabelecidos padrões e processos de compartilhamento, armazenamento e coleta de informações em todos os estágios de desenvolvimento, além de as regras e responsabilidades de cada membro sejam claras.

Aqui vão algumas dicas para você que é head de inovação e quer realizar uma boa gestão da inovação aberta na sua empresa.

  1.   Identifique o estado atual das ações existentes de inovação aberta de acordo com cada um dos elementos apresentados aqui;
  2.   Defina objetivos estratégicos da sua empresa com o futuro programa de inovação aberta;
  3.   Identifique e analise os gaps existentes para a operacionalização da inovação aberta, um roadmap poderá te ajudar nisso;
  4.   Consiga apoio das lideranças da empresa e obtenha o alinhamento dos stakeholders para integrarem à sua rede de inovação aberta.
  5.   Se esforce bastante para conseguir uma medição consistente do sucesso e um planejamento robusto para mitigar os riscos.

Criar e operar uma rede de inovação aberta com sucesso não é algo trivial. Se você quiser saber como nós da Troposlab ajudamos grandes empresas a dar o primeiro/próximo passo na estratégia de gestão da inovação, mande uma mensagem