Nós da Troposlab sempre nos dedicamos a compreender profundamente o comportamento do empreendedor. E com “profundamente” estamos nos referindo a questões como: decisão de empreender, desafios na jornada do empreendedor, fracassos, conquistas, sentimentos, pensamentos, emoções, habilidades, características, dentre outras. 

Mais especificamente desde março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia da COVID-19, nos vimos também interessados e comprometidos em entender questões relacionadas a saúde mental e empreendedorismo. E foi assim que fizemos uma parceria com um grupo de pesquisadores e especialistas da UFMG e, juntos, realizamos em junho de 2020 um estudo pioneiro no Brasil, investigando efeitos da COVID-19 na saúde mental de empreendedores brasileiros

O que é saúde mental?

Antes de prosseguirmos, precisamos deixar mais claro qual é o nosso conceito de saúde mental. Um cuidado especial tem sido necessário para tal compreensão, pois ele já não deve ser entendido como a “ausência de doença”. Saúde mental vai além dessa definição, uma vez que envolve muitos outros aspectos, como, por exemplo, o bem-estar do indivíduo. 

Numa tentativa de ir na direção de uma definição mais inclusiva, alguns autores propõem que saúde mental é um estado dinâmico de equilíbrio interno que permite aos indivíduos usar suas habilidades em harmonia com os valores universais da sociedade. Sendo assim, sugere ainda que fatores como: habilidades cognitivas e sociais básicas; capacidade de reconhecer, expressar e modular as próprias emoções, bem como ter empatia pelos outros; flexibilidade e capacidade de lidar com eventos adversos na vida e função em papéis sociais; e a relação harmoniosa entre corpo e mente; representam aspectos importantes da saúde mental e que podem contribuir para o estado de equilíbrio interno (Galderisi et al., 2015).

Histórico entre saúde mental e empreendedorismo

Precisamos falar um pouco também sobre como foi até aqui a relação entre saúde mental e empreendedorismo. Logo que iniciamos nossa pesquisa com esta temática, nos deparamos com uma escassez de estudos interessados em entender o nível de sofrimento psicológico dos empreendedores ou mesmo se haveria relação entre os desafios forjados pelo empreendedorismo e a saúde mental de quem empreende. 

Encontramos alguns estudos que tentaram discutir o sofrimento, as defesas e as psicopatologias dos empreendedores (Junior & Macedo, 2013). Outros que Identificaram desgaste físico e mental no processo de empreender (Martins et al., 2020) ou investigaram a saúde mental e o bem-estar dos empreendedores e sua relação com os antecedentes e consequentes do processo de empreender (Stephan, 2018). Contudo, parece ser unânime entre todos os autores que a temática está totalmente sub investigada e que mais estudos precisam ser feitos. E isso se sustenta pelo fato de que os poucos estudos realizados apontam para níveis importantes de sofrimento psicológico também entre as pessoas que estão diariamente comprometidas com a realização de suas ideias, projetos ou negócios. 

Então os super-heróis do empreendedorismo também sofrem?

O título acima é, obviamente, apenas uma provocação para introduzir uma discussão muito necessária e séria. Ao que parece, até aqui, prevaleceu a ideia de que os empreendedores seriam pessoas mais resilientes, mais persistentes e até mais realizadoras. E ainda, isso trouxe a ideia (talvez equivocada) de que pessoas com tais características pudessem estar mais preparadas para enfrentar situações de grande estresse. Ainda não podemos fazer fortes afirmações sobre essas relações, pois elas permanecem distantes dos campos de investigações científicas. Mas com o estudo pioneiro realizado pela Troposlab e pela UFMG, podemos fazer algumas análises que podem ser importantes e que podem nos ajudar nesse caminho, vejam só: 

  • 76% dos empreendedores se sentiam afetados pela pandemia – uma das perguntas do estudo investigou o quanto os empreendedores se sentiam afetados pelos desafios trazidos pela pandemia e mais de três quartos dos empreendedores relataram que estavam entre afetados e muito afetados. Isso demonstra que os empreendedores também apresentam respostas de sofrimento às adversidades mesmo que isso não seja um motivador para deixarem o empreendedorismo.
  • 81% dos empreendedores enxergaram um ambiente mais incerto – esse é outro dado interessante, pois demonstra que, na percepção dos empreendedores, os novos desafios deixaram o ambiente mais incerto. É fato que os empreendedores passam boa parte de suas jornadas vivendo incertezas, mas a pandemia foi um precedente para perceber o ambiente ainda mais incerto. Sobretudo, sabemos também que as incertezas são grandes responsáveis por desencadear respostas de ansiedade e estresse na maioria das pessoas.
  • 15% dos empreendedores iniciaram uso de medicamentos – estima-se que hoje existam no Brasil mais de 50 milhões de empreendedores (GEM, 2019), sem contar o aumento que ocorreu durante o ano de 2020. Isso para dizer que 15% de uma população de 50 milhões seriam quase 8 milhões de pessoas. E parece ser esse o número de empreendedores que podem ter iniciado o uso de algum antidepressivo ou ansiolítico durante o período de isolamento. Não podemos fechar os olhos para esse número quando falamos de saúde mental de empreendedores.
  • 6% dos empreendedores apresentaram níveis severos dos sintomas de estresse, ansiedade e depressão – isso pode significar cerca de 3 milhões de empreendedores em níveis graves de sofrimento psicológico. Além disso, o estudo também revelou que entre sua amostra, 13,8% dos empreendedores já receberam, ao longo da vida, algum diagnóstico de depressão e 50,7% disseram o mesmo para diagnósticos de ansiedade. Ou seja, existem sim sinais de sofrimento psicológico também no mundo do empreendedorismo. 
  • Relação entre queda financeira e sofrimento psicológico – o estudo também encontrou uma relação que vale ser observada que é entre sofrimento psicológico e queda de rendimento financeiro. Nessa amostra, cerca de 73% dos empreendedores relataram quedas de rendimento familiar, e ainda, identificou-se que quanto maior a queda do rendimento mais severos são os índices de sofrimento psicológico. Extrapolando o momento de pandemia podemos pensar que os empreendedores podem passar por instabilidades financeiras diversas vezes ao longo de sua jornada e esse pode ser sim mais um fator de grande estresse presente em seu cotidiano.  
  • Relação entre incerteza e sofrimento psicológico – e por fim, mais um dado relevante é que no estudo também foi percebida a relação entre sofrimento psicológico e percepção de incertezas. E quanto mais incerto é o ambiente para o empreendedor, mais severos são os níveis de estresse, ansiedade e depressão. Novamente, o empreendedor passa boa parte de seu tempo imerso em ambientes de incertezas e isso pode ser mais uma estressor presente em seu dia-a-dia. 

Existem fatores de proteção para saúde mental do empreendedor? 

Precisamos falar também sobre aspectos que podem proteger a saúde mental do empreendedor ao longo de sua jornada. Contudo, isso pode ser um dos maiores impactos negativos da falta de investigações sobre a temática. Por desconhecer os fatores que ameaçam o bem-estar dos que empreendem, pouco sabemos ainda sobre quais podem ser verdadeiramente fatores que os beneficiam e auxiliam no processo. Mas a pesquisa citada, também trouxe alguns sinais que podem nos ajudar com essa reflexão:

  • Relação entre percepção de autoeficácia e sofrimento psicológico: como já citamos acima, 81% dos empreendedores perceberam o ambiente mais incerto no momento da pandemia da COVID-19, contudo, cerca de 71,7% também relataram que se sentiam capazes ou muito capazes de enfrentar os desafios. E o mais interessante é que, quanto mais se percebiam capazes, menores eram os seus índices de sofrimento psicológico. Isso nos leva à hipótese de que a percepção de autoeficácia do empreendedor pode sim ser uma grande aliada e representar um fator de proteção e bem-estar. 

Esses dados preliminares revelam que diversas ações podem ser pensadas e desenvolvidas a fim de aumentar a percepção de autoeficácia do empreendedor, e pode ser o começo de uma série de ações no caminho de tornar a jornada empreendedora também mais saudável. 

É possível empreender de forma mais saudável!

Para encerrar a nossa discussão sobre a temática, precisamos trazer a ideia de que podemos e devemos buscar formas de empreender que sejam mais saudáveis. Isso vai de encontro com inúmeras pautas relevantes sendo discutidas ao redor do mundo, como a construção de um olhar mais humano sobre o trabalho, sobre processos sustentáveis, sobre saúde de forma mais ampla, entre outros. Existem sinais importantes de que também no empreendedorismo podem existir relações com o trabalho que não são favorecedores para o ser humano, que não são satisfatórias do ponto de vista de bem-estar e mais do que isso, que podem ser adoecedoras. Precisamos refletir sobre a possibilidade de que os heróis (nada super poderosos) do empreendedorismo também possam estar enfrentando desafios estressores e sofrimento psicológico. 

Além disso, precisamos falar mais sobre a temática e buscar formas de discutir abertamente, abrindo espaços seguros para que os empreendedores sintam que podem falar sobre seus sofrimentos e buscarem ajuda quando isso for necessário. Ou mesmo, que possam investir em ações de prevenção, realizando seus projetos e sonhos, a partir de jornadas saudáveis e equilibradas. Isso é real, isso é possível e isso é necessário também no mundo do empreendedorismo. 


Fica aqui mais uma vez nossos agradecimentos aos empreendedores que participaram de nossa pesquisa e nos proporcionaram dados para as análises discutidas acima. Mais detalhes sobre a pesquisa, sobre todos os dados citados ou dicas sobre saúde mental no universo do empreendedorismo podem ser encontrados também no nosso report. Clique na imagem a seguir para baixar gratuitamente. 

Capa do report sobre saúde mental e empreendedorismo a partir da pesquisa realizada pela Troposlab e a UFMG.

Referências:

Galderisi,et al.(2015).Toward a new definition of mental health. World Psychiatry, vol. 14, 231–33. PubMed Central. https://doi:10.1002/wps.20231.

Global Entrepreneurship Monitor (2019). Empreendedorismo no Brasil. Disponível em: http://www.ibqp.org.br/gem/download/. Acesso: 30 jun. 2020.

Junior, E.H.G; Macedo, K.B. (2013). Saúde e trabalho do empreendedor: um estudo em psicodinâmica do trabalho. Fragmentos de cultura, Goiânia. v.23, n.3, p.335-347. 

Martins, L.P.; Veiga, H.M.S.; & Cortez, P.A.; (2020). Motivações e dificuldades vivenciadas por jovens empreendedores: estudo qualitativo.Revista de Psicologia, Fortaleza, v.11, p. 60-70. 2020 doi:10.36517/revpsiufc.11.2.2020.6.

Stephan, Ute (2018). Entrepreneurs’ Mental Health and Well-Being: A Review and Research Agenda. The Academy of Management Perspectives, (), amp.2017.0001–. doi:10.5465/amp.2017.0001

 

Por |2021-05-25T13:50:17-03:0025/05/2021|empreendedorismo|

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Me graduei em Administração (UIT) e em Psicologia (UFMG) com Mestrado em Cognição e Comportamento (UFMG). Atualmente sou doutoranda em Cognição e Comportamento (UFMG). Tive meu primeiro negócio em 2007, e não parei mais de empreender. Desde 2015 realizo pesquisas sobre comportamento empreendedor e produzido metodologias para desenvolver pessoas em ambientes de inovação. Nada me deixa mais feliz do que estar na companhia de pessoas que amo falando sobre o que realmente importa na vida.
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