Provavelmente você deve ter visto na mídia alguma notícia sobre a sigla ESG, que ainda é nova no Brasil, porém já é bem conhecida na Europa e nos Estados Unidos e significa Enviromental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). Essas três letras vieram para revolucionar o mundo dos investimentos e, recentemente, fundos de investimentos com base no ESG chegaram a uma marca histórica de US$1trilhão de patrimônio no mundo, com crescimento de 25% no segundo trimestre de 2020. Apesar desse conceito ser relativamente novo no Brasil, a Europa e os EUA representam os maiores mercados e têm uma concentração de aproximadamente 870 bilhões de dólares e 158 bilhões de dólares, respectivamente. Apesar do impacto negativo gerado no início da pandemia de COVID-19, os interesses dos investidores por modelos de negócios sustentáveis e resilientes têm aumentado e seguido os padrões de sustentabilidade e governança.

Toda essa preocupação do mercado com questões ambientais do mundo começou há um certo tempo, desde o início das discussões na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD). Informalmente conhecida como Cúpula da Terra, ela ocorreu em 1992 no Rio de Janeiro e teve como resultado o tratado Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), que foi assinado por todos os países que tinham o compromisso da estabilização da concentração dos Gases do Efeito Estufa (GEE). A partir deste momento, houveram diversos desdobramentos de acordos ainda mais ambiciosos pelos países membros da ONU. Os mais conhecidos são os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o Acordo de Paris. Esses foram compromissos firmados por governos do mundo inteiro e que teriam impactos diretos em sua sociedade, economia e meio ambiente; toda a forma de desenvolvimento de médio e longo prazo passaria a ser definida com base nesses acordos.

O surgimento de um novo padrão de consumo

Além de pressões governamentais, os mercados estão sendo demandados pelos consumidores da nova geração que evidenciam ter prioridades mais ligadas à responsabilidade e ao impacto social. Para se ter ideia, em pesquisa realizada pela Cone Communications em 2016, foi mostrado que 75% dos millennials estão dispostos a terem salários mais baixos para trabalhar em uma empresa que é socialmente responsável. Em outro estudo, realizado pela Nielsen em 2017, foi mostrado que 73% dos millennials pagariam a mais por produtos ou soluções que sejam sustentáveis.

A mudança na forma de se fazer negócios no mundo

À medida em que novos acordos e compromissos governamentais são realizados, o mercado vem respondendo e se moldando, de forma a atender à nova lógica de se fazer negócios. Como consequência de diversas discussões entre sociedade, governos e mercado, a agenda do ESG para os negócios foi sendo definida e os fatores envolvidos podem ser entendidos da seguinte forma:

Fatores Ambientais: uso de recursos naturais, emissões de gases de efeito estufa (CO2, gás metano), eficiência energética, poluição, gestão de resíduos e efluentes.

Fatores Sociais: políticas e relações de trabalho, inclusão e diversidade, engajamento dos funcionários, treinamento da força de trabalho, direitos humanos, relações com comunidades, privacidade e proteção de dados.

Fatores de Governança: independência do conselho, política de remuneração da alta administração, diversidade na composição do conselho de administração, estrutura dos comitês de auditoria e fiscal, ética e transparência.

O ESG como um processo de desenvolvimento

O ESG deve ser entendido como um processo, e não como algo binário (sim ou não) ou excludente, de ser ou não ser ESG. Esse processo pode ser melhor interpretado como uma jornada em que as companhias vão se desenvolvendo e mudando de estágio, a fim de atenderem aos fatores pré definidos. Dessa forma, é necessário que as empresas definam métricas para ajudar no acompanhamento dos negócios e na sua evolução. Hoje existem alguns índices de sustentabilidade utilizados pelos mercados financeiros ao redor do mundo, cada um com a sua metodologia, no Brasil é utilizado o MSCI ESG Ratings para calcular a exposição de cada empresa aos riscos atrelados ao ESG. 

O Reset do Capitalismo

Em setembro deste ano, o Fórum Econômico Mundial (WEF, sigla em inglês), em colaboração com a Deloitte, EY, KPMG e PwC elaboraram 21 indicadores de ESG (Measuring Stakehoders Captalism, 2020) que possam ser refletidos nos principais relatórios anuais das companhias de forma consistente em todos os setores da indústria e países. Essas métricas devem ser passíveis de verificação e garantia, para aumentar a transparência e o alinhamento entre empresas, investidores e outros stakeholders. O objetivo principal dessa iniciativa é fazer com que as companhias do IBC (The Forum’s International Business Council) comecem a relatar coletivamente em cima dessa base, de forma a encorajar a cooperação e o alinhamento entre os padrões existentes, bem como catalisar o progresso em direção a uma solução sistêmica, podendo se tornar um padrão de prestação de contas internacional que geralmente é aceito a esse respeito.

O conjunto de indicadores sugeridos já são os mais bem estabelecidos e com importâncias críticas para as empresas, em sua maioria, e já são divulgados em vários relatórios ou então podem ser obtidos com um esforço razoável. Os 21 indicadores são organizados em quatro pilares que são alinhados com os ODS e os princípios do ESG, como descrito na figura abaixo.

Cada um desses pilares tem uma grande influência na capacidade da empresa em gerar valor compartilhado e sustentável. Apesar de cada pilar ter a sua performance independente, os indicadores atrelados a cada um não devem ser analisados isoladamente. Por exemplo, os princípios da governança são importantes para garantir a realização das atividades que contribuem com a prosperidade e sustentabilidade da sociedade. 

Diagrama com os princípios do ESG

Conhecendo os principais indicadores do Fórum Econômico Mundial

Seguindo a mesma lógica de contribuição independente de cada pilar com influência transversal, os 21 indicadores sugeridos têm como base diversas fontes de relatórios periódicos já estabelecidos em grandes corporações, como o GRI¹, TCFD², SASB³, dentre outros. Os indicadores sugeridos pelo WEF, relacionados com os pilares, estão descritos na tabela abaixo.

PilarTemaPrincipais métricas e divulgações
Princípios de GovernançaPropósito GovernanteDefinindo o propósito, o propósito definido pela companhia será como uma expressão das suas intenções com as soluções propostas pelos negócios para questões econômicas, ambientais e sociais.
Qualidade do corpo diretivoComposição do alto nível do corpo diretivo e os seus comitês por competências, independência, quantidade, posições e dedicação, dentre outros.
Engajamento dos StakeholdersQuestões materiais que afetam os principais stakeholders e a companhia, como os tópicos foram identificados e como os stakeholders foram engajados.
Comportamento ÉticoAnti corrupção, métricas de pessoas treinadas, incidência e origem da corrupção e iniciativas e engajamentos para combater a corrupção.
Conselhos de ética protegidos e mecanismos de denúncia.
Supervisão de Riscos e OportunidadesFator de risco da companhia e divulgação de oportunidades que identificam claramente os principais riscos e oportunidades materiais enfrentados especificamente pela empresa.
PlanetaMudanças climáticasEmissões de gases do efeito estufa.
Implementação das recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures)
Perda de naturezaUso da terra e sensibilidade ecológica, relatório de número e área de posses de terrenos, arrendado ou administrado em ou adjacente a áreas protegidas e / ou áreas-chave de biodiversidade.
Disponibilidade de água doceConsumo de água e retirada de água em áreas com escassez de água.
PessoasDignidade e igualdadeDiversidade e inclusão de colaboradores.
Igualdade de remuneração entre os grupos.
Nível salarial entre as diversas categorias.
Risco de incidente de trabalho infantil, forçado ou obrigatório.
Saúde e bem estarSaúde e segurança, relatórios quantitativos de fatalidades, ferimentos e acidentes.
Habilidades para o futuroTreinamento fornecido aos colaboradores por grupos.
ProsperidadeEmpregabilidade e geração de riquezaNúmero absoluto e taxa de empregabilidade por grupo.
Contribuição econômica, valor econômico gerado diretamente e distribuído, assistência financeira recebida do governo.
Contribuição de investimento financeiro.
Inovação e melhores produtos e serviçosDespesas totais em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
Vitalidade comunitária e socialImpostos totais pagos
1.GRI: Global Report Initiative
2.SASB: Sustainability Accounting Standards Board
3.TCFD: Task Force on Climate-related Financial Disclosures

Foram 12 meses com contribuições de órgãos e instituições privadas e públicas de diversas partes do mundo para a construção dos 21 principais indicadores que poderão ajudar as empresas de diversos setores e regiões do mundo a alinharem os seus negócios com os princípios do ESG. À medida que as companhias forem fazendo as medições dos seus indicadores, é esperado que sejam criadas iniciativas voltadas às mudanças positivas para o meio ambiente, sociedade e economia, sendo que essas iniciativas podem ocorrer de diversas formas.

Inovação e a sua relação com o ESG

Aqui nós queremos te mostrar como as práticas da inovação podem ajudar a sua organização a amadurecer nos indicadores relacionados ao ESG. Olhando diretamente para o pilar de Prosperidade, tem o indicador de “Inovação de melhores produtos e serviços”. Diretamente é esperado que as empresas invistam em P&D para gerar produtos e/ou serviços inovadores por conta própria, além disso, analisando os impactos que novos produtos/serviços podem gerar, é esperado que os indicadores de Mudanças Climáticas, Perda de Natureza e Disponibilidade de Água Doce possam ser beneficiados diretamente. Pois a expectativa dos novos consumidores é que os novos produtos/serviços gerem cada vez menos impactos negativos ao planeta.

Programa de intraempreendedorismo

Agora fazendo uma análise com programas de intraempreendedorismo, como o programa InPulse da Saint Gobain e InovaVLi da VLi, que são práticas comuns de inovação com foco no treinamento e capacitação dos colaboradores e desenvolvimento de novas ideias, podemos perceber algumas influências dentre os 21 indicadores. Esses programas treinam os colaboradores para as “habilidades do futuro” (desenvolvimento de proatividade, capacidade inovadora, soft skills, dentre outros) e também contribuem para o desenvolvimento de novas soluções inovadoras (“Inovação e melhores produtos e serviços”). Nos casos em que os programas contam com o desenvolvimento de soluções para problemas internos, os programas podem contribuir para o aumento da segurança e qualidade do trabalho dos colaboradores (“Saúde e bem estar”) e redução dos impactos negativos ao meio ambiente (“Mudanças climáticas”, “Perda de natureza” e “Disponibilidade de água doce”).

Programa de Inovação

Além de programas de intraempreendedorismo, é possível realizar projetos de capacitação, treinamento e geração de material tático e estratégico com foco na alta gestão, como foi o caso do Programa de Inovação da RHI Magnesita para o seu time de P&D. O desenvolvimento da habilidade de visão de futuro para gerentes, diretores e gestores do P&D poderá impactar diretamente resultados em geração de novos produtos/serviços da empresa, desenvolvimento de tecnologias do futuro que sejam mais sustentáveis, aumento da performance financeira da empresa e melhoria das condições e qualidade do trabalho. Dessa forma, os indicadores que podem ser beneficiados diretamente são dos temas “Qualidade do corpo diretivo”, “Supervisão de riscos e oportunidades”, “Mudanças climáticas”, “Perda de natureza” e “Disponibilidade de água doce”, “Empregabilidade e geração de riqueza”, “Inovação e melhores produtos e serviços”, “Saúde e bem estar” e “Habilidades do futuro”.

Inovação Aberta

Programas de Inovação Aberta para conexão com startups, como o EDP Starter e o Iguá Lab, podem ir além da geração de novos negócios entre startups e grandes empresas. Essas iniciativas de inovação podem contribuir com a geração de soluções inovadoras para o mercado (“Inovação e melhores produtos e serviços”), otimização de processos produtivos da indústria e, consequentemente, redução dos impactos ambientais (“Mudanças climáticas”, “Perda de natureza” e “Disponibilidade de água doce”), algumas startups apresentam soluções para a melhoria da segurança no trabalho (“Saúde e bem estar”), podem ser realizados investimentos em novos negócios (“Empregabilidade e geração de riqueza”) e novas soluções para combater a corrupção dentro da organização (Comportamento Ético).

A Inovação e seus outros desdobramentos no ESG

Estes foram alguns exemplos de programas e projetos que fazem parte de iniciativas da inovação, além disso, a inovação tem diversos desdobramentos dentro da empresa, como por exemplo:

  • A promoção da diversidade e inclusão nas empresas, tendo em vista o aumento da capacidade de geração de novas ideias inovadoras, geração de vantagem competitiva e aumento da performance financeira, como mostramos aqui e aqui. Como consequência, os temas dos indicadores influenciados podem ser “Dignidade e igualdade”, “Saúde e bem estar”, “Inovação e melhores produtos e serviços” e “Empregabilidade e geração de riqueza”.
  • O desenvolvimento e fomento da cultura de inovação dentro da empresa podem impactar desde os funcionários do chão de fábrica até o alto escalão (C-Level). O trabalho realizado na cultura de inovação pode ajudar a sua empresa a desenvolver uma liderança capaz de superar desafios com agilidade e visão de futuro e a desenvolver a capacidade de rápida adaptação da organização para novos desafios, saiba mais sobre os impactos da cultura de inovação aqui, aqui e aqui. Com isso, os temas dos indicadores influenciados podem ser “Propósito Governante”, “Qualidade do corpo diretivo”, “Engajamento dos Stakeholders”, “Habilidades para o futuro” e “Empregabilidade e geração de riqueza”.
  • A contribuição, fomento e participação em ecossistemas temáticos de inovação também merecem atenção e reconhecimento da sua contribuição para o ESG. Existem movimentos no mundo inteiro com temas de inovação na mineração (MiningHub, AMIRA e Cemi), tecnologias limpas (Cleantech Movement) e inovações para o bem estar (CareTech Movement). Todos esses movimentos contribuem para o alinhamento e aumento da colaboração entre as empresas/indústrias para geração de soluções inovadores e sustentáveis, dessa forma, os temas de indicadores impactados diretamente podem ser “Propósito Governante”, “Engajamento dos Stakeholders”, “Mudanças climáticas”, “Disponibilidade de água doce”, “Saúde e bem estar”, “Inovação e melhores produtos e serviços” e “Empregabilidade e geração de riqueza”.

Estratégia de inovação para os novos desafios

Com isso, fica perceptível que a inovação atua de forma transversal em diversas áreas da empresa, podendo trazer contribuições consistentes para os principais indicadores de ESG. Essa característica transversal da inovação acaba a tornando mais complexa para planejar estratégias robustas para a empresa e para gerir todas as suas iniciativas, por isso o olhar sistemático para a inovação será um fator crucial do seu sucesso, como abordamos algumas vezes no nosso blog aqui, aqui e aqui.

Estar sempre atento às mudanças do mundo faz parte da essência de uma empresa inovadora e, cada vez mais, os desafios estão se tornando ainda mais complexos. Apesar dos alarmes sobre as consequências das mudanças climáticas terem sido feitos há mais de 30 anos, agora que é o momento de reinício para uma nova forma de fazer negócio, com a construção de um capitalismo consciente e o envolvimento e geração de valor para toda a cadeia. A inovação poderá ser um dos caminhos para a sua empresa acompanhar a agenda do ESG e estamos preparados para te ajudar nessa jornada.